17 de fevereiro de 2022

Joker: a tragédia de ser Arthur

 Aqueles que se sentem sozinhos e isolados vão sentir uma ligação forte com Arthur. Especialmente quem sofrer de algum tipo de distúrbio e que passa os dias a tentar combate-lo. Esses vão entender os motivos. Vão sentir empatia e vão sentir pena.

Muitos vão pensar que o filme encoraja a violência ou que devemos responder com sangue a todos aqueles que não têm um pouco de decência e civismo. Na verdade, eu penso que este filme deve ser visto como uma obra que encoraja o respeito que deveria existir entre todos nós e, que a empatia entre as pessoas, deveria ser algo normal.

Todos nós deveríamos sentir que fazemos parte e que existimos.

Joaquim Phoenix está incrível e Todd Philips soberbo na maneira como transforma Arthur em Joker. A bem dizer, a cinematografia está impecável. Excelente filme!

Russian Doll: morrer para viver

Esta série da Netflix é surpreendentemente cativante e uma excelente opção para quem não quiser ou não estiver com a disponibilidade mental para assistir a episódios de uma hora, que parecem ser a norma hoje em dia, das séries mais em voga. E depois tem Natasha Lyonne como protagonista, uma mulher que é ridiculamente carismática e que, neste caso, carrega a série às costas.

A verdade é que a escrita ajuda muito também, mas caramba, por onde andou Natasha estes anos todos? Só me lembro da mulher no American Pie e isso foi há uns vinte anos!

Russian Doll segue o estilo narrativo popularizado com Groundhog Day, que consiste num ciclo infinito de repetição do tempo. Natashsa Lyonne, ou melhor Nadia Vulvokov, no dia do seu aniversário acaba por morrer para, inexplicavelmente, logo a seguir, regressar “vivinha” da silva à sua festa de aniversário. Mantendo as memórias de todas as repetições, com a eventual ajuda de diversas pessoas e uma outra personagem com o mesmo estranho destino, Nadia tenta descobrir o que raio se está a passar.

É essa investigação que iremos acompanhar e que torna esta série muito interessante. Russian Doll, no fundo, é uma alegoria e uma metáfora para a maior parte das vidas das pessoas.

Creio que muita gente se vai identificar com a série, embora a princípio pareça que Russian Doll é algo “presunçosa” e que a Nadia não é nada mais que a típica mulher cínica, pedante, de nariz empinado, que se acha dona do seu destino e que não precisa da ajuda de ninguém. Mais para a frente, percebe-se que Nadia e o outro personagem principal, Alan Zaveri, sofrem de muitos dos males que assolam a sociedade actual: solidão, culpa, medo e depressão.

Na procura por uma solução para toda aquela repetição, durante todas as questões existenciais que vão surgindo, enquanto vão explorando a mortalidade e experimentando tudo aquilo que faz deles serem humanos, Nadia e Alan, acabam por chegar à conclusão que para poderem seguir em frente na vida, têm que se ajudar mutuamente.

Talvez seja essa a mensagem principal de Russian Doll. No fundo, temos que aceitar a ajuda de alguém para podermos ultrapassar um caminho de destruição própria. Não vale a pena escondermos-nos de nós nem fingir que tudo está bem, quando existem bloqueios emocionais ou apenas andamos a repetir os mesmos erros todos os dias.

Excelente banda sonora, humor extraordinário, drama, questões certas, respostas, erros, perdão, aceitação, vida e morte, e uma actriz muito carismática. Boa série!